Uruguai: quando uma pandemia obriga a mudar a cultura política para não sucumbir

O que nem sempre se assume é a esmagadora circunstância de seu avanço em múltiplos flancos ao mesmo tempo.

Artigo de Eduardo Gudynas; Tradução de Raphael Sanz
Correio da Cidadania, 15 de maio de 2020
Gudynas 2 Imagem

Estamos enfrentando uma crise de novo tipo. Isso sabemos, mas o que nem sempre se assume é a esmagadora circunstância de seu avanço em múltiplos flancos ao mesmo tempo: é planetária, sua propagação é vertiginosa e suas consequências invadem muitas dimensões, que por exemplo vão da emergência sanitária à econômica, da moral à política, com impactos em todas elas simultaneamente.

Enfocando-me no caso do Uruguai, é indispensável começar tentando entender que nunca antes o país havia enfrentado algo assim. Portanto, é inevitável se perguntar se a cultura política uruguaia, esse talante de ser conservador e autonomista ao mesmo tempo, dos ritmos cansados, e que foi útil no passado, segue sendo apropriada diante desse novo desafio.

A ansiedade em saber o número de contágios diários faz com que muitas vezes se perca de vista que essa ‘uruguaiedade’ esteja hackeada. A pandemia terá impactos econômicos severos que a sua vez estão demarcados em problemas globais muito sérios, como a queda dos preços das matérias-primas, sua crescente volatilidade ou o colapso de capitais de investimento. O Uruguai não controla nenhuma dessas dinâmicas. É nesse contexto que se inserirá o paulatino apagamento nacional, e por isso se devem evitar eufemismos e reconhecer que as consequências serão, na realidade, brutais.

Por sua vez, a derrocada econômica não poderá ser resultado unicamente de ferramentas da economia convencional. As respostas do governo, como flexibilizar tributos ou brindar empréstimos brandos às empresas, não alcançarão os que já estavam na informalidade por exemplo, e menos ainda os que buscam no dia-a-dia.

Muitas perguntas devem ser feitas em outros âmbitos, e já se deveria estar pensando em como assegurar o acesso a alimentos, saúde e serviços básicos. Isto não se resolve com instrumentos de assistência econômica ao estilo velho, e é uma incógnita se o governo, a oposição e uns quantos setores sociais entendem isto.

É que nossa cultura política, que tem suas raízes no início do século 20, e se reconfigurou e fortaleceu desde o fim dos anos 80, tem atributos positivos, mas outros negativos. Derivou em posturas individualistas, liberais ainda que também republicanas, e cada vez mais ensimesmadas em disputas pelos excedentes econômicos (como as que opõem corporações empresariais aos governos) ou usar compensações econômicas (como ocorreu no MIDES por anos). As discussões de fundo sobre como organizar a produção e o comércio ou os sentidos da justiça, não é que desapareceram, mas acabaram relegadas.

O atual governo Lacalle Pou como está muito mais perto de um individualismo liberal, não está muito bem equipado para instalar alternativas mais profundas nessas outras dimensões. O sintoma mais claro é a falta de liderança que por ora mostra o novo ministro de desenvolvimento social (vem de uma escola onde prevalece o sentido de caridade sobre o de justiça). Isto não quer dizer que se a pandemia houvesse estalado no tramo final do governo Vázquez o governo anterior faria melhor; pelo contrário, dada a idade e o ânimo daquela equipe, são válidas todas as dúvidas sobre se teriam tido a energia para enfrentar a crise. E eles também, a seu modo, operavam a mesma lógica.

Mas essa ‘uruguaiedade’ está tão arraigada que se repete em outros atores, como ocorreu com a confusa convocatória a panelaços da central sindical PIT-CNT. Se esclareceu que não era um protesto mas um reclame de medidas enérgicas, como uma renda mínima cidadã transitória. É uma ideia muito potente, mas o que mais chama a atenção é que se realmente se quer resolver a urgência social a primeira medida já está ao alcance das mãos: cancelar o contrato com a empresa de celulose UPM, para instalar uma nova fábrica.

O Uruguai está obrigado a enormes aportes financeiros para uma fábrica que gerará poucos empregos, e sua justificativa, baseada na velha lógica da qualificação do risco-país, saltou pelos ares com os primeiros espirros com coronavírus. Todo esse dinheiro poderia ser utilizado para criar emprego genuíno, em atender a urgência social, e inclusive uma renda básica cidadã. Mas quase todos estão tão metidos nos protocolos da ‘uruguaiedade’ que não se animam a pensar ou defender a alternativa.

O mesmo se repete com outro atributo nacional: a marcha cansada. Não se entende que esta crise avança vertiginosamente, enquanto aqui se dão os primeiros passos para armar um plano para comprar mais respiradores, mas desde o último 25 de março sabemos que no mercado mundial já quase não os vendem, porque os países que os produzem os guardam e outros reagiram antes e já se encarregaram do problema.

Para agravar a situação, muitos meios de comunicação parecem estar mais que desorientados. Se entretém reproduzindo ninharias, como por exemplo o informativo televisivo em horário nobre onde a locutora apresenta uma entrevista a um ‘transcender coach’ que recomenda abordar a crise respirando fundo ou gritando.

Se continuarmos dentro da lógica da ‘uruguaiedade’, do liberalismo individualista, não se enfrentará com êxito a pandemia. Os velhos modos de pensar e reagir estão caducando diante dos nossos olhos, e se requer outra atitude. Isto é um desafio que necessariamente deve ser abordado antes que seja tarde demais, e o primeiro passo é reconhecer que devemos mudar a nossa cultura política.

Eduardo Gudynas é analista do CLAES (Centro Latino Americano de Ecologia Social) em Montevideo.
Artigo publicado em 26 de março no Acción y Reacción, blog do autor.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.

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