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 O novo verão da (outra) lata 

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índio baraross toca seus quadros sem largar o cachimbo: ‘muitas vezes as pessoas perguntam: como que o cara pode estar louco e normal ao mesmo tempo?’ (foto: gabriel uchida)

*Reportagem publicada na edição 3 d´O CÍCERO. Tiragem impressa de mil exemplares e PDF

*Pode ser lida também na página d´O CÍCERO

*Texto: Raphael Sanz

*Fotos: Gabriel Uchida

Vivendo há oito anos na rua Glete, em um belo dia desse peculiar e desértico verão sem chuvas, nosso xará Cícero Rodrigues, mais conhecido como Índio Badaross, ganhou uma geladeira. Saiu do seu barraco na rua onde todos os conhecem e percorreu com a sua carroça algumas quadras até o local onde estava o doador. Muito educado, agradeceu, e carregou sozinho a carroça com a pesada geladeira. Cansado pelo calor, pela falta de umidade e pelo enorme esforço físico, Índio entrou dentro da geladeira – mais fresquinha, ainda que desligada – fechou-se lá dentro e tirou uma soneca. Em meio ao descanso, sentiu que alguém levantava e começava a puxar sua carroça. “Daí eu pensei: olha que lazarento, tá querendo roubar minha carroça e nem sabe que eu tô aqui, mas deixa quieto”, e ficou ali deitado, quietinho. Além da geladeira, ainda tinha um monte de latas e entulhos que ia levar ao depósito de reciclagem da Cracolândia para vender por uns trocados. O caminho deve ter demorado um pouco mais do que o normal devido ao peso carregado na carroça e Índio ficou ali, deixando quieto. Ao chegar no depósito, escutou o larapio negociando a troca dos objetos coletados e até a geladeira, a poucos centímetros da carroça. “Foi quando eu saí da geladeira,” conta, caindo na gargalhada. “Mas ele levou um susto, meu filho! Que eu nem consegui ficar sério, daí eu disse: pô meu amigo, muito obrigado por ter trazido minha carroça aqui no depósito, eu tava cansadão e sem forças pra trazer, mas tu trouxe ela pra mim enquanto eu descansava”, e riu, mais do que falou. Negociou por sua vez os objetos que levava na carroça e voltou para a rua Glete.

Já faz muitos e muitos verões que a Cracolândia é, literalmente, uma pedra no sapato daquela parcela enorme de paulistanos que despejam regras – para os outros, obviamente – vindas diretamente dos seus respectivos intestinos grossos. Até pouco tempo atrás, a operação sufoco aplicada pela gestão Gilberto Kassab dava carta branca aos guardas civis e policiais militares para que brutalizassem os usuários de crack da região a fim de expulsá-los mesmo – aqui n´OcicerO não precisamos dar voltas no assunto – para valorizar a região e abrir as portas da Nova Luz para a especulação imobiliária. Nova Luz? Era comum passar na região e ver enquadros gigantescos, policiais agredindo grupos de dezenas de pessoas a céu aberto e luz do dia e até mesmo repassando drogas, segundo apuração de dezenas de repórteres investigativos. Mas foi neste verão, na temporada 2013/14, sem chuvas e com racionamento de água e de ventiladores, que essa abordagem do poder público começou a mudar. Não que ela seja, hoje, uma maravilha. Mas pelo menos não é mais uma completa desgraça de política pública. Com a saída do antigo prefeito neofascista após a vitória do novo prefeito filiado ao PT, o poder público municipal deu um salto estratosférico nessa questão.

Acontece que o programa Braços Abertos infelizmente só foi posto em prática por questões estéticas, após a construção de uma “favelinha” nas ruas da região que incomodava as vistas dos paulistanos cagadores de regras. Mas foi. E isto foi um salto. Entre dezembro do ano passado e o último mês de janeiro, usuários e moradores da cracolândia ocuparam as ruas em frente à estação Julio Prestes e nela construíram seus barracos escandalizando as madames dos jardins que sequer pisam na região e arrepiam seus cabelos cheios de laquê através das telas dos seus notebooks. O programa em si, já exaustivamente explicado em toda sorte de veículo de comunicação, funciona mais ou menos assim, segundo apuração da revista Carta Capital: “A operação prevê a hospedagem em um dos cinco hotéis conveniados da região, a contratação para serviço de varrição e zeladoria com carga de 4 horas diárias, mais duas de qualificação e salário de R$15 por dia de trabalho e a oferta de três refeições gratuitas – dois hotéis oferecem café da manhã; nos outros, todas as refeições serão realizadas no Bom Prato da rua Dino Bueno. O serviço é do governo estadual, mas a prefeitura está pagando, através da ONG Brasil Gigante, cada prato servido.” E muita gente perfumada chiou.

Mas o programa não é nenhuma maravilha para muitos dos moradores. “Peguei o trampo lá, comecei a varrer, só que eu não curto não, porque muitos não varrem. Uns trabalham, outros não”, critica Índio Badaross. Ainda disse que uns se beneficiam mais do que outros e reclamou das instalações do hotel. “Aqui (no barraco da rua Glete) é mais fresquinho, enquanto lá no hotel é uma fornalha, não dá pra dormir direito, pelo calor e pelo barulho, porque aquilo é um ninho de cão.” Mas não chove aqui no seu barraco, Índio? “Não, olha só o ângulo desses prédios, quase não cai chuva aqui, mas nem tem chovido mesmo, pega nada. E aqui ninguém mexe comigo. Aqui nesse lugar, meu irmão, já estou há quase 8 anos. Aí agora eu tô com um quartinho lá, mas um cara como eu que passou muito tempo na rua não se acostuma a ficar preso num quarto, não acostuma. Até porque lá não tem muito espaço para eu deixar minha arte, nem muita privacidade, você não pode levar ninguém, não pode levar visita, você tem que ficar tipo isolado, entendeu? Já aqui não, posso receber vocês, posso receber as amiguinhas, ficar de boa, entendeu? Lá é molhado, eles não deixam fazer nada.”

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‘eu só faço meu trabalho quando eu tô brisado, entendeu?’, diz o artista, que se autointitula o Basquiat brasileiro (foto: gabriel uchida)

 

Índio se referia por “amiguinhas” as suas eventuais namoradas. “Estava com outra esses tempos, mas tive que mandar ela ir embora, porque era muito brava, agora tô com essa aqui que até me tira a vontade de fumar”, diz apontando para o barraquinho onde a moça tirava um cochilo. “Eu quando fumo o crack, o crack pra mim não traz essa energia ruim que traz pros outros. Eu fumo e consigo trabalhar, pintar, conversar… consigo satisfazer as mulheres, nunca nenhuma mulher reclamou de mim. Agora tem cabra por aí que fuma o crack e depois não levanta e a mulherada reclama. Graças a deus nenhuma mulher nunca reclamou de mim não”, e enquanto terminava de dizer esta última frase, a moça gargalhou de dentro do barraco e disse para este repórter: “isso é verdade moço, pode escrever.”

Índio é artista plástico, pintou inúmeros quadros com os quais transformou a rua Glete em uma galeria de arte a céu aberto em plena Cracolândia, quebrando as pernas e fazendo morder a língua aqueles que discriminam os usuários. E ele não é bobo. Impulsionado pelo amigo Zezão, famoso grafiteiro que mora e possui ateliê ali próximo, Índio se autointitula o Basquiat brasileiro e não é a toa. Alem de alguma semelhança física, o pernambucano de Petrolina estudou um livro do grafiteiro estadonidense antes de sair pintando por aí. “O Zezão me deu o livro e disse pra eu estudar. Li, estudei, passou um tempo, ele tomou o livro da minha mão e disse: agora vai lá e pinta,” contou. Seus quadros são sempre muito parecidos, mas nunca iguais, na maioria rostos de pessoas fictícias com alguma influência bem visível, consciente ou não, do cubismo e do abstracionismo. Só para pontuar: ele sempre pinta quando está muito louco. “Eu só faço aí os meus trabalhos tudo é quando eu tô brisado, entendeu, irmão? Ou quando eu tô brisado ou com fome ou às vezes eu tô desgostoso porque ajudei as pessoas e elas pisaram nimim, mas aí eu não desconto em ninguém não, eu desconto é nas tintas. A minha maldade é pra mim mesmo, entendeu? Eu mesmo é que devia gostar mais de mim,” desabafa.

E na sequência explica a fonte de inspiração que o faz pintar os rostos. “Essas caras aí são caras que vem na minha mente, entendeu? E depois eu fico ali, imaginando: pô de onde que saiu isso? E sai na hora! Na hora que vem eu começo a fazer sem pensar muito e só depois que eu vou refletir pra tentar descobrir da onde veio essa idéia. Eles (os quadros de rostos) não são muito diferentes uns dos outros, mas eu não sei fazer o mesmo quadro, então eles saem todos meio parecidos, só que diferentes. É porque acontece alguma coisa comigo que só sai isso aqui, entendeu?” Entendi.

Outra característica da sua obra é o fato de ele se utiliza de certa forma de uma técnica colocada há quase um século pelo celebre movimento antropofágico, lá nos tempos do modernismo. Índio me levou até a parede improvisada do seu barraco onde havia diversos quadros seus pendurados. Havia telas convencionais, mas também muitas placas de madeira e plástico encontradas no lixo que foram reaproveitadas pelo artista. Pegou um dos quadros para me explicar como funciona seu processo de produção. “Pra fazer um quadro dá trabalho, olha por exemplo aquele lá. Tem uns sete meses que eu fiz esse desenho. Esse aí era tipo um quadro com uns planetas desenhados e aí eu peguei e fiz essas caras em cima dos planetas”, e apontou para os rostos mais arredondados que o normal na sua obra. E a partir dessa obra, foi explicando com uma paciência e uma paixão impressionantes os canibalismos de seus outros trabalhos. E reclamou. “Olha esse aqui, rasgaram! Tem gente que não gosta de mim mas que não vem e desconta em mim, eles vai lá e desconta nas minhas coisas quando eu não tô perto. Aqui, ó o quadro rasgado, que sacanagem!”

“Muitas vezes as pessoas perguntam, como que o cara pode estar louco e normal ao mesmo tempo? Mas eu sou assim, entende? A loucura pra mim não faz diferença, não mudo com ela, nunca precisei de roubar nem matar, eu só quero comer, beber, dormir, pintar, conversar, trabalhar, sempre fui assim, entendeu? Vivo a vida devagar, com calma. Há oito anos nessa rua aqui”, conta. Ao ser questionado se ele é realmente indígena, Cícero afirma que não, mas que é descendente de uma mistura de índios com caboclos e fala da bisavó cabocla com muito orgulho e muita saudade. “A velha era brava, cabocla brava, até morrer ela cuidava da terra dela, plantava, colhia, cozinhava, fazia as coisas dela e ainda dava mocotó pro velho pra ficar legal de noite na cama.”. Então é por isso que viveu tantos anos, rebati, e ele deu risada. “Mais de cem anos.” A família era dona de pedaços de terra no sertão de Pernambuco, perto de Petrolina, que segundo ele era um paraíso. “As vezes eu ia sozinho pro meio do mato e ficava lá, na maior paz, tenho muitas saudades daquelas terras, faz oito anos que não volto lá.”

História secreta do crack
Saudosista, o artista plástico conseguiu encontrar uma forma bem saudável de lidar com uma droga nem um pouco saudável, a qual sabemos tem a capacidade de definhar e até matar um usuário em um curto período de tempo.

O interessante, e chocante, é a forma como é narrado o gênese do tráfico crackeiro no livro Aliança Sombria (Dark Alliance, no título original) do famoso jornalista investigativo estadonidense Gary Webb. A Aliança Sombria foi editada a partir de uma série de reportagens de Webb para o San Jose Mercury News, em 1996, na qual ele seguiu os passos do caso Irã-Contras e a partir dele passou a ir atrás de famosos traficantes, desvendando rotas do narcotráfico conhecidas da CIA e fazendo uma denúncia – digamos – de “gente grande”. Webb foi acusado por todos os lados de utilizar falsas fontes e manipular informações, foi ameaçado de morte, perdeu o emprego, sofreu bullying midiático nos EUA e morreu em 2005. Segundo a versão oficial, nosso valoroso colega cometeu suicídio.

Segundo a obra do repórter “suicidado”, nos anos 80 a CIA comprava crack e heroína dos contras da Nicarágua para financiá-los, dando-lhes capital de giro para a compra de armas para empreender a luta contra a recém vencedora Revolução Sandinista que depôs o ditador Anastásio Somoza em julho de 1979 e a qual suas políticas contrapunham naquele país os interesses dos Estados Unidos. E com o atacado em mãos, a CIA começou a promover o varejo. E o bastião capitalista da moral e dos bons costumes passou a vender e distribuir drogas para seu próprio povo. Fabricou traficantes milionários e diversas cracolândias em cidades como Los Angeles, Oakland e San Francisco, na costa oeste.

Larry Pinkney, veterano líder do Partido dos Panteras Negras (PPN), fundado em outubro de 1966, em Oakland, deu recentemente uma entrevista ao site brasileiro A Verdade acusando o governo dos Estados Unidos de ter promovido uma guerra química contra os Panteras Negras naquela mesma época. Denúncia que é comprovada na investigação de Webb.

É um fato irrefutável que o governo dos Estados Unidos fez uso de guerra química, não apenas contra o Partido dos Panteras Negras, mas também contra os negros e outras comunidades. Não é mera coincidência que despejos de lixo e materiais perigosos são preferencialmente lançados próximo a comunidades pobres e negras e nas terras de populações indígenas nativas,” denuncia Pinkney. E prossegue: “É também um fato irrefutável que o governo dos Estados Unidos fez uso de um horrível tipo de subterfúgio pelo qual drogas pesadas, como a heroína, ficassem facilmente disponíveis especialmente em comunidades negras. Isso foi algo devastador para as comunidades negras, e suas terríveis consequências são sentidas profundamente até os dias atuais. Além disso, hoje, o fenômeno do crack e da cocaína não só não é coincidência, como também serve tanto para facilitar a violência como a desunião nas comunidades negras e em outras, enquanto, ao mesmo tempo, promove outra arma legal para o governo botar na prisão massas de pessoas pobres,” afirmou. E isso pode ser facilmente revisto na realidade brasileira atual, tanto nas favelas e comunidades carentes da periferia quanto na Cracolândia do centro de São Paulo. Segundo a mesma apuração da revista Carta Capital citada no início deste artigo, assistentes sociais da prefeitura de São Paulo do programa Braços Abertos reclamavam que a maior parte do tempo ficavam a mediar conflitos entre os moradores da região, fortes usuários de crack. Isso sem contar os diversos relatos de brutalidade policial.

Ainda segundo Larry Pinkney, “o fato é que o governo (dos Estados Unidos, no caso) é profundamente cúmplice do uso de drogas que ocorre hoje, pois essa situação serve para manter negros e outras comunidades neutralizadas e sob controle. A assim chamada guerra às drogas do governo, a exemplo de sua guerra ao terrorismo, é falsa e constitui mecanismo para repressão e controle político. A responsabilidade do governo dos Estados Unidos nesse horror pode ser resumida em apenas duas palavras: subterfúgio e negação,” finalizou.

No Brasil não é muito diferente com a Cracolândia. Até pelo fato mais do que batido de que todas as nossas anti-drogas são cópias mal feitas de políticas desenvolvidas nos Estados Unidos, algumas delas até já descartadas pelos amos do norte por ineficiência e fabricação de danos. O fato de uma região central – com inúmeras obras arquitetônicas exuberantes, como a Estação e o Parque da Luz, a Sala São Paulo e a Estação Júlio Prestes – estar completamente abandonada e povoada majoritariamente por negros, pobres e viciados em crack é um prato cheio para o empreendedorismo canalha e desumano da gentrificação e da especulação imobiliária. É a versão tupiniquim, ou melhor, verde-amarelista do dueto subterfúgio e negação. Dueto esse traduzido em políticas públicas históricamente lamentáveis que não visam de forma alguma resolver o problema, pelo contrário, criam novos e mais complexos problemas para aquecer os negócios dos financiadores privados de campanhas eleitorais.

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Um pensamento em “O novo verão da (outra) lata

  1. olá
    li uns escritos seus no Trecheiro. me chamou atenção as fotos, a frase do eduardo no início da matéria. fiquei curiosa para saber quem era o jornalista. No google apareceu o blog. E da hora! essa sua conversa com o Indio, seus escritos todos chamaram a minha atenção. conteúdo bom. parabéns p vc. também escrevo sobre essas minhas conversas aí. Quando dá, fotografo.
    bem..mas sou só uma psicóloga, não jornalista…
    marilia

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